Nascido na pequena Monte Azul Paulista, cidade do interior do estado de São Paulo, Victor Sanches se tornou um dos grandes conhecedores da capital, pelo menos no que diz respeito à comida vegana. O morador da Vila Mariana divide o tempo como professor de yoga e designer, além de ser o criador do RotaVEG. Com mais de 56 mil seguidores no Instagram, o maior guia de lugares veganos de São Paulo completa 5 anos em 2019. A Animal Equality Brasil conversou um pouco com ele sobre essa trajetória.

Você é vegano há quanto tempo? Como foi o processo de transição?
Em 2007 eu estudava em Bauru e morava em república. Conheci uma amiga que morava ao lado e era vegana. Foi meu primeiro contato com alguém que não comia carne. Nessa época comecei a praticar yoga e conheci uma mais pessoas vegetarianas e isso começou a fazer sentido pra mim.

Depois de assistir o documentário “Terráqueos” eu fiquei tão chocado que quis virar vegano do dia pra noite. Tentei no final de 2007 e fiquei uns 6 meses. Segurei bem, mas naquela época foi difícil porque não sabia cozinhar e não tinham muitas opções de lugares poara comer na cidade, então continuei só vegetariano.

Me mudei para São Paulo em 2010 e no ano seguinte vi que já tinha repertório e acesso suficientes, então decidi seguir a minha ideologia. Foi quando comecei a transição e aí criei também o RotaVEG. Como eu já tinha aprendido a fazer várias substituições, a transição foi tranquila e não tive mais muitas dificuldades

Você acha que o RotaVEG te ajudou na transição?
Me ajudou porque eu comecei a fazer o blog para mostrar para amigos e pessoas mais próximas lugares que poderíamos comer e depois comecei a receber retorno de pessoas que diziam ter ido em algum lugar que eu indiquei e gostaram.

Comecei a divulgar como ativismo, uma forma de mostrar para as pessoas que dá pra ser vegano e comer de tudo pela cidade. Isso foi me fortalecendo também quando as pessoas começaram a me indicar coisas novas. Às vezes eram projetos pequenos, divulgados só em grupos do Facebook, mais underground. Depois que eu postava, todo mundo ficava sabendo e bombava, então eu também vi que tinham essas pessoas que faziam pequenas coisas e que precisavam de divulgação. Era algo que eu sentia que fazia para ajudar de alguma forma tanto pequenas iniciativas que estão começando quanto as pessoas que não sabiam onde encontrar opções. 

Como era o formato do RotaVEG no começo?
Quando comecei eu criei o blog, onde publicava as matérias. Tinha Facebook e Instagram linkados, mas eram mais para direcionar para o blog. Não colocava tanta informação ali, até porque o Instagram era inflexível, só permitia postar uma foto, não tinha como colocar vídeo ou fazer álbum. 

Começou devagar, mas o que mais funcionava era o Facebook. As matérias que fizeram eu ter amplitude e engajamento eram as que eu divulgava lá. Só que teve uma hora que eu percebi que o Instagram estava ficando mais forte. Os seguidores do foram aumentando muito e o Facebook foi perdendo engajamento.

Depois eu comecei a inverter. O blog foi ficando como um background para as pessoas que queriam ler uma matéria mais completa, até que eu desencanei das matérias completas também e comecei a postar só no Instagram. Faço uma legenda resumida com as informaçõe principais e é isso que vai pro blog hoje.

Eu resumo e isso me dá mais velocidade de postagem. Um post que você faz precisa de pesquisa, ver se não tem informações erradas, e as vezes nao tenho esse tempo. Escrevo até no metrô. Pra quem não vive de blog, como eu, facilita por eu nao ter tempo e nem ser financeiramente viável dedicar uma tarde para escrever um texto.

Qual foi o primeiro lugar que você postou?
Acho que foi o Vegg’s, da Vila Mariana, do lado do metrô Santa Cruz, um dos vegetarianos mais antigos de São Paulo. Eu ia lá muito por ser perto de casa, mesmo antes de ser vegano. Depois acho que postei o Loving Hut, que também é perto de casa.

Quais são os seus critérios para postar sobre um lugar?
No começo eu queria divulgar os lugares que eu ia e gostava. Hoje vejo que o meu trabalho é muito mais divulgação do que critica gastronômica. Eu sou uma pessoa muito tranquila com relação ao paladar, então passei a ter como critério perceber se o lugar está preparado para receber, se a pessoa sabe o que está fazendo. Se for uma experiência ruim, eu não divulgo e converso com a pessoa responsável sobre o que poderia melhorar. Aí volto outra vez. Prefiro não apontar o dedo ou manchar a imagem do lugar.

Acho que cada vez que alguém critica o trabalho de uma pessoa querendo se abrir a colocar uma opção vegana no seu estabelecimento, o movimento perde, a causa perde. É melhor fazer esse trabalho de formiguinha. Ter calma, corrigir.

Entendi que não tenho como garantir nada. Isso foi uma questão que eu também refleti bastante, porque eu já recebi muita gente criticando por ter ido em algum lugar que eu divulguei e não ter gostado. Por isso sempre posto preços e fotos do lugar, para a pessoa entender a proposta e decidir se ela está aberta ou não.

No RotaVEG você também divulga lugares que não são exclusivamente veganos?
Sim, porque eu vejo como uma forma de incentivar. Existem várias visões, mas nessa questão de opção vegana eu acho que mais ajuda do que atrapalha. É uma forma de tornar [a informação] mais acessível  para que as pessoas que estão querendo fazer a transição encontrem coisas, e incentiva o próprio lugar a se reinventar.

Um exemplo é o Sushimar Vegano. Ele só abriu porque a galera ia na outra unidade e pedia muito o rodízio vegano. Os donos viram que tinha tanta demanda que abriram o outro sem nenhum produto de origem animal. Se eu vou numa pizzaria e posto, a concorrência vê que tem uma opção vegana e decide colocar também, acaba virando viral mesmo. Hoje em dia toda pizzaria quer ter uma opção assim 

Eu sei que não é o ideal e que ainda não é perfeito, porque se você pensar numa ideia mais abolicionista, comprar em um estabelecimento não-vegano ainda financia os outros produtos a pessoa proprietária, que nem é vegana. Se metade do planeta fosse vegano, eu iria boicotar mesmo, mas a gente está falando de um mundo em que a grande maioria não é vegana, então qualquer oportunidade que você tenha pra falar sobre veganismo é válida, já é alguma coisa. Penso que é uma transição e cada um tem a sua forma de fazer ativismo.

Você acha que se tem falado mais sobre veganismo hoje?
Nos últimos três anos o negócio bombou muito. Antes tinham uns lugares que do pessoal meio alternativo, mais ligado ao Hare Krishna e ao yoga. Depois começou a ganhar uma outra dimensão, tanto pelo movimento plant-based, que já é uma coisa mais elitizada, ao mesmo tempo em que veio uma discussão muito forte com relação aos direitos dos animais.. Abriram muitos restaurante veganos e lugares e marcas que têm preocupação ecológica, como cosméticos.

Quais são os seus lugares favoritos?
Se alguém me perguntasse sobre lugares indispensáveis em SP, tipo “Tô indo pela primeira vez para a cidade, não dá pra não ir”, eu diria um lugar onde as pessoas sempre se chocam pela variedade de opções é o Loving Hut da Vila Mariana. As sobremesas são maravilhosas e gosto muito de lá.

Gosto também da Veganeria Stuzzi, que é meio elitizada, mas é muito boa. O Pop Vegan Food eu sempre indico pelo ativismo, pelo fato de ser acessível e também pela pizzaria, que funciona à noite. Para mim, é uma das melhores pizzas da cidade.

O Prime Dog eu curto, mesmo sabendo que tem muita gente que nao curte. Eu gosto e vou muito por ser barato e perto de casa. Não que tenha o melhor hambúrguer da cidade, até mesmo porque eu nao sei qual o melhor, mas é bom e vale a pena. É um clássico. E o Holy Café, em Pinheiros, também é 100% vegano e tem um brunch maravilhoso

Tem planos para o futuro do RotaVEG?
Vou deixando rolar, não tento ficar muito quebrando a cabeça e deixo acontecer. Os convites e parcerias vão surgindo. É uma coisa mais leve. Mas gostaria de conseguir rentabilizar um pouco mais para poder dedicar mais tempo e até falar sobre outras coisas, outros temas.

Quais seriam esses outros temas?
Ligo muito a questão do veganismo com o yoga e as filosofias orientais de espiritualidade. Gostaria de falar mais como essas coisas se encaixam, tanto com a espiritualidade de uma forma geral quanto a relação que as pessoas têm com os animais. Acho que ela é uma porta de entrada para muita gente. 

Consumo consciente é algo que eu também me interesso muito, assim como a culinária. Às vezes faço alguma coisa em casa posto no RotaVEG sem produzir muito, mas queria um tempo para pensar e estruturar, até fazer parceria com algumas marcas.

Como é a sua atuação com a yoga e a relação que você faz entre ela e o veganismo?
Eu tento ligar um pouco essa coisa do yoga com o RotaVEG, mas percebo que o perfil no geral é diferente. São movimentos separados que se encontram em alguns momentos.

No perfil do Instagram @victorsanchesyoga eu divulgo retiros e aulas. Sou professor particular e em escolas e academias como a Bio Ritmo da Av. Paulista, a Matrika Yoga, na Augusta, o MyYoga, nos Jardins e o Espaço Natividade na Vila Nova Conceição. Além disso tenho feito alguns retiros.

Percebi que todo mundo que vai nesses retiros é uma galera mais do yoga e menos do veganismo, pessoas que não tem ainda a ideologia formada na cabeça, que estão conhecendo a ideia. Então quando elas chegam num retiro só de comida vegana, percebem que dá para viver assim. Nas aulas, cada turma tem cerca de 15 pessoas novas e eu posso falar o que quiser para pessoas que estão dispostas a ouvir. Isso pode ser um ativismo muito grande para despertar nas pessoas alguma coisas. Não tem como falar de yoga sem falar de não-violência e por mais que você não seja vegano e comece a praticar ioga, sua cabeça vai começar a mirar naquela direção.

Acho que faz sentido porque ao virar vegano, você está olhando para a questão ética, mas quando você introspecta, por meio de práticas meditativas, vê que tem um fundo um pouco maior nisso, pois está de certa forma se abrindo à empatia. Por isso, vejo o veganismo como uma porta de entrada para o autoconhecimento, e o yoga para o veganismo. Você olha pra si e consegue ver o animal, que é igual a você.

Quais dicas você daria para quem está começando a se interessar pelo veganismo?
Se caiu a ficha em relação ao veganismo, a mudança de hábitos é um esforço inicial que você faz nos dois, três primeiros meses, que é o que foi comigo, mas isso passa. Precisa um pouco de pesquisa, de dedicação, como qualquer outra coisa que se queira fazer, mas depois você consegue se adaptar muito bem sem abdicar de nenhum prazer. Muito pelo contrário, o paladar se abre e você descobre novos sabores, explora outras combinações. Antes de virar vegano a minha alimentação era muito pobre, depois melhorou muito.

A partir do momento em que você entende que a vida de um animal não pode valer mais que o seu paladar, o mínimo de esforço que você faz para reestruturar seus hábitos já é tudo para eles.

Fiz recentemente uma visita ao Santuário Vale da Rainha, que fica em Camanducaia, Minas Gerais. Foi a primeira vez que tive um contato direto e tão perto com animais de fazenda. Colocar a cabeça ao lado daquele bichos enormes e dóceis, fazer carinho e perceber a sensibilidade deles é uma sensação muito louca, pensar no que eles passam. Pra quem é vegano, isso reforça tudo o que fazemos. Pra quem não é, isso também causa um impacto muito forte. Além do Vale da Rainha, indico também o Terra dos Bichos, em São Roque-SP, e o Rancho dos Gnomos, em Cotia-SP.

O que indicaria de bibliografia sobre veganismo e alimentação para os seguidores da Love Veg?
Um livro muito bom é o da Melanie Joy, “Por que amamos, cachorros comemos porcos e vestimos vacas”. E além dos documentários que a galera geralmente já conhece, como “A Carne é Fraca”, “Cowspiracy” e o “Terráqueos”, que me chocou muito, gosto muito de um chamado “More Than Honey”, que mostra a importância das abelhas. 

Outro que indico é “O Verdadeiro Custo”, que mostra a indústria de roupa e vestuário e o quanto isso também se relaciona o veganismo, por estar relacionado diretamente com o meio-ambiente e a produção de algodão transgênico que destrói ecossistemas, enquanto enquanto explora humanos. É muito tênue essa linha que define até onde vai o teu veganismo.

Guilherme Petro

Jornalista, cozinheiro e professor de culinária, é co-autor do Prato Firmeza – Guia Gastronômico das Quebradas e cria conteúdos sobre alimentação consciente e acessível. Acompanhe mais no Instagram @guilhermespetro.