Ressignificando na prática o conceito de comida artesanal, acessível, caseira e afetiva no centro de São Paulo, o Toya Vegan é o retrato da Dona Selma, a mulher que está à frente de tudo isso

“Nem sou cozinheira, só invento algumas coisas”, diz a dona das mãos que produzem os pratos veganos mais bem servidos e acessíveis do centro da cidade. Por R$15 é possível comer clássicos que nos enchem de nostalgia, como o picadinho de soja, ou criações diferentes e interessantes, como a salsicha de amendoim (que pelo tamanho e textura lembram mais um croquete), acompanhada de um purê de batatas com gosto de infância.

Selma Lopes se tornou vegana há mais de 10 anos. Mulher, negra, 54 anos, moradora da Vila Zilda, no extremo norte de São Paulo, não se lembra exatamente quando aconteceu, mas diz que a vontade foi imediata após um pouco de estudo e esclarecimento.

– Eu sempre gostei de ler e de estudar, e vi que o veganismo faz parte da natureza e da criação. Os animais não foram feitos para servir de alimento para o ser humano. Não tem explicação pra isso.

A transição foi tranquila. Por conta da religião adventista que segue, ela já era vegetariana, então não teve tantos problemas com mudança de hábitos. Para as pessoas que conviviam no entorno, como a família mineira que cozinhava muito, a mudança foi mais radical do que para ela mesma. Mas estava convicta do que queria e isso ajudou muito. E, para quem quer seguir o seu caminho, aconselha o mesmo: “Acho que o melhor é tentar se convencer de que esse é o caminho, porque, uma vez convicto, as dificuldades ficam pequenas e você não volta atrás”.

Depois de conhecer uma senhora que dava oficinas mensais para grupos adventistas sobre alimentação e saúde, ela percebeu que mesmo gostando de comer, nem todo mundo gostava de cozinhar como ela. Assim, passou a oferecer alguns lanches e doces nos encontros. O sucesso foi tanto que a clientela passou a sugerir que ela vendesse em outros lugares.

O primeiro lugar que recebeu seus preparos, que até então eram servidos apenas nos eventos da igreja, foi a antiga Vegan Pride, na Galeria do Rock. “Foi quando eu conheci as pessoas veganas fora do meu grupo de religião e fiquei encantada de saber que existiam pessoas fora desse meu mundo que pensavam como eu”, conta. 

Para ela, comida não é só pegar ingredientes e jogar dentro da panela. A influência da família se reflete na sua forma de encarar o ato de cozinhar. Neta de uma mineira muito criteriosa e filha de um pai que sempre gostou de comer e reunir a família em volta da mesa, ela diz que a comida tem que saciar não só a boca, mas também a mente.

Desde o começo o seu objetivo sempre foi claro: acabar com a ideia de que a comida vegana tinha que ser cara: “Sei da realidade. Às vezes você vai em algum evento não consegue experimentar duas ou três coisas, por causa do preço. Eu gosto das coisas justas. A gente vive num sistema de exploração, é explorado o tempo todo. Se você não explora o animal mas explora o ser humano, você foge da base do veganismo”.

Com o passar do tempo, foi fornecendo para mais lojas, participando de eventos e bazares veganos e conquistando novos clientes, a ponto de conseguir viver apenas dos seus preparos, deixando os trabalhos de serviços gerais, como diarista e ascensorista, para trás. 

Depois, conseguiu um quiosque nos fundos da Galeria Quitanda, onde começou vendendo lanches, doces e salgados, e depois introduziu os pratos feitos, com refeições que ela preparava em casa e levava prontas para o espaço. Novamente o resultado foi que o espaço não era mais suficiente para comportar a demanda. Já era hora de arrumar outro lugar e abrir um restaurante de fato.

Não é fácil ter um espaço em São Paulo, principalmente nas regiões centrais mais movimentadas da cidade. De uma cliente veio a indicação de uma sala na Galeria Barão de Penedo, na Rua da Consolação. De todos os lugares possíveis, foi o último que tentou, por ter consciência do alto valor de aluguel da região. “Passei um perrengue que você não faz ideia”, conta.

Do perrengue vieram os milagres. Depois de conseguir um bom acordo com o proprietário da sala e ter um desconto que possibilitava o aluguel, Selma abriu o estabelecimento sem muita estrutura, apenas com a cara, a coragem e o apoio da filha e do filho.

À essa altura, ela já era conhecida no meio vegano, mas no primeiro dia, em junho de 2018, não apareceu ninguém. Seguiram insistindo, mesmo que com dificuldade, e, aos poucos, os clientes foram surgindo. “Não fiz divulgação, quem fez foram os clientes, que traziam pessoas novas e indicavam o restaurante.“.

As opções variam a cada dia, os salgados e sobremesas também. Tudo é feito lá, dos queijos dos pratos aos doces. A ideia é ter uma comida saborosa e um atendimento acolhedor. É comum vê-la andando e cumprimentando sempre quem está comendo, perguntando se está tudo bem, se precisam de algo ou querem sugerir alguma coisa. “Converso muito com todo mundo. Se alguém tem alguma ideia pode falar porque é assim que a gente melhora. Sempre estou aberta”.

Os bolos são um capítulo à parte: como nunca gostou do sabor do ovo, Selma já adaptava suas receitas mesmo antes de se tornar vegana. E, acredite se quiser, elas não levam nenhum tipo de ingrediente mirabolante. A base é feita apenas de água, óleo, farinha açúcar e fermento, mais algum elemento de sabor, como suco de fruta, chocolate, ou fubá, se necessário. Além do que é servido no restaurante, ela recebe encomendas de bolos, doces e salgados para festas.

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E assim seguiram os meses, crescendo cada dia mais o número de clientes. Até então, Selma continuava preparando a comida em casa e levando para o restaurante. Como se trata de uma sala comercial em uma galeria, o espaço para uma cozinha é bem limitado. Em certo ponto a demanda já estava tão grande que era necessária uma reforma – ou uma outra sala da galeria que havia ficado vaga.

Foram semanas de contato e espera com o proprietário. Depois de um tempo, ela chegou até a pensar que o espaço pretendido já havia sido alugado para outra pessoa, mas não só teve um teve um retorno positivo, como também uma boa dose de empatia. Ou melhor, duas. Se, por um lado, o proprietário do novo espaço não cobrou nenhum depósito, por já ter ouvido falar do trabalho e da competência da Selma, na antiga sala, o outro dono abriu mão de alguns alugueis para que ela pudesse fazer uma pequena reforma e melhorar o espaço.

– Eu acredito em Deus e acredito em milagres. Para mim, foram milagres que aconteceram.

Milagrosa é a comida, que alimenta o corpo e a alma e apresenta o veganismo da melhor maneira possível. Ali, não há agressividade na abordagem. Muito pelo contrário, há pãezinhos de escarola e calabresa. A conquista se dá por meio do sabor. “Cada um tem seu tempo, cada um tem sua história, sua cabeça e sua experiência”.

Sobre outros lugares que gosta de comer pela cidade, é direta: “Sinceramente, eu não frequento muitos lugares por essa questão da elitização da comida. É o que eu vivo, é o que eu sinto. Tem alguns lugares que até dá pra ir, mas a maioria deles não foi feito para pessoas como nós, simples. Podem discordar de mim, mas é a minha opinião.”

Se crescer muito algum dia, quer expandir para as periferias, estar mais perto de onde vive e sente que ainda existem poucos lugares, apesar da grande procura. Mas seu sonho mesmo é abrir um restaurante popular, tipo um Bom Prato (rede de restaurantes populares do governo estadual de são Paulo que serve refeições a R$1) vegano. E ela segue contando ele pra todo mundo, até que quem sabe chegue em alguém que tenha dinheiro para investir na ideia.

Enquanto esse dia não chega, ela tem pensado até sobre tirar um dia para servir pratos mais ainda mais baratos e segue mantendo os preços numa faixa que mais gente consiga comer, e assim a comida vegana fique mais democrática.

A palavra Toya é de origem japonesa e significa “flor de pessegueira”, “pêssego”. Poderia existir todo um conceito marqueteiro por trás do nome que batiza o restaurante, mas na verdade, se trata de uma homenagem a um cachorro que viveu com a família e de onde se originou o nome.

Entre o acidente e o milagre, é inegável que o pequeno Toya segue bem vivo, qualquer que seja a sua crença.


Toya Vegan
Rua da Consolação, 331 – Consolação, São Paulo
Telefone: (11) 98214-7130
Horário de funcionamento: segunda a sexta: 10h às 20h
Aceita cartões de débito, crédito, Sodexo e VR
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Guilherme Petro

Jornalista, cozinheiro e professor de culinária, é co-autor do Prato Firmeza – Guia Gastronômico das Quebradas e cria conteúdos sobre alimentação consciente e acessível. Acompanhe mais no Instagram @guilhermespetro.